Não há “espanholização” no futebol brasileiro. Há apenas sem-vergonhice.

Cotas televisivas absurdamente desiguais causam desequilíbrio financeiro imenso no futebol brasileiro, agravados pelos valores dos patrocínios estatais.

Por Irlan Simões

Ano passado o Corinthians “negociou” um reajuste nos valores do patrocínio da Caixa, no uniforme.  O valor repassado para o clube paulista era de R$ 25 milhões, para estampar o nome do banco estatal no uniforme, na região da barriga e na parte superior das costas.

Com a exigência de aumento, a Caixa topou pagar “apenas” R$ 30 milhões para manter a sua marca na barriga, liberando as costas para que o Corinthians negociasse outro contrato qualquer.

O Vitória, nos mesmos moldes, recebia R$ 6 milhões. Não pode negociar as costas, e ainda assim recebe cinco vezes menos que o Corinthians.

Isso porque se trata de um banco estatal, que teoricamente não deveria se guiar apenas pelas regras do mercado, mas pela função social de “desenvolver o desporto”, como alega o banco.

Mas falando da esfera privada, essa lógica é absolutamente a mesma. O Corinthians receberá R$ 170 milhões em cessão de direitos televisivos para a disputa do Campeonato Brasileiro da Série A. O Vitória, disputando o mesmo torneio, receberá apenas R$ 35 milhões.

Veja que ainda estamos falando de uma comparação do Corinthians com um dos 20 maiores clubes do Brasil (o 18° em desempenho desde o início dos pontos-corridos). A cada novo degrau da pirâmide do futebol brasileiro, a desigualdade se agrava ainda mais.

Mas a verdade é que essa disparidade nunca foi tão gigantesca.

Como averiguou Cassio Zirpoli em seu blog, Corinthians e Flamengo, no topo da pirâmide, concentrarão 26,2% de todo investimento feito na Série A. Isoladamente, receberão quase três vezes o valor de gigantes como Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio e Internacional . Esses clubes conquistaram nada menos que duas Libertadores, dois Brasileiros e duas Copas do Brasil nos últimos anos.

Também concentrarão individualmente um valor praticamente igual às somas de Vitória, Bahia, Sport, Atlético-PR e Coritiba; clubes de grande torcida considerados os “médios” do Brasil.

Num mundo minimante racional, que prezasse pelo mérito esportivo acima dos interesses comerciais, já estaria subtendido que por ser oriundo de uma das maiores megalópoles do mundo o Corinthians Paulista já sai na frente de muitos dos seus adversários. É uma capacidade dezenas de vezes maior de mobilização de público assistente, compradores de materiais oficiais, inscritos em planos de sócio-torcedor, etc.

Não preciso ser contra os critérios de “exposição da marca” – que norteiam as justificativas desses valores tão díspares, públicos ou privados – para entender que é basicamente impossível fazer futebol contra times com orçamento 10 vezes superior ao seu. E contando.

Há anos vemos os times medianos (não estou falando dos menores, mas aqueles que disputam com frequência a Série A), obrigados a montar seus elencos com quase metade dos jogadores das divisões de base, e suas principais peças sendo emprestadas pelos maiores clubes.

Enquanto esses times medianos buscam a sobrevivência num campeonato extremamente concorrido onde 20% dos seus participantes é rebaixado para a segunda divisão; os adversários mais ricos conseguem praticamente reformular todo o seu time titular na janela de transferências da metade do campeonato.

Como a tendência de rediscussão desses valores é a da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, e num momento em que os clubes estão comprometidos com as exigências de redução de gastos por conta do Profut (refinanciamento das dívidas com a União), a única saída viável é um boicote total das forças medianas e menores do futebol brasileiro.

Uma partida de futebol é jogada entre duas equipes. Quando cada uma delas começar a se retirar de campo – e o futebol não acontecer – com certeza as coisas começarão a ser repensadas.

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