Exercitando hegemonias

A final da Libertadores entre Flamengo e River deixará de ser transmitida para passar um jogo do Real Madrid em meio de temporada na Champions League.

Na cobertura de um jogo do Flamengo pelo Brasileirão o repórter, na arquibancada, deverá a entrevistar jovens com a camisa do Real ou Barcelona. Quando o Corinthians jogar, deverão ser registradas as camisas do PSG e do City.

No noticiário local, menos da metade da programação será para todos os clubes brasileiros e o Brasileirão. Se um jogo tiver 4 gols, só passaremos 2. A maior parte será reservada a entrevistas alternadas com os craques do Real, Barça, PSG ou City.

Quando acontecer rodada decisiva na Champions, repórteres espalhados por Bangu e Madureira captarão a torcida do Rio Madrid; já em Itaquera e Jaguaré, a festa da torcida Paris Saint Paul.

Na final da Copa do Brasil, uma longa reportagem sobre as duas paixões dos torcedores dos clubes na decisão: “Você aqui é Flamengo, mas lá fora é Real ou Barça?”. Camisas serão vendidas metade-metade pra não ter briga.

Vale considerar que a final da Copa do Brasil foi realocada de data para não chocar com os jogos de Real, Barça, City e PSG. Acontecerá na terça, às 19h15.

Flamengo campeão da Copa do Brasil, olha que bonita festa, parabéns Mengão. Depois do intervalo voltamos para falar da grande polêmica da semana: Eden Hazard merece o Prêmio de Melhor do Mundo? E não perca também a entrevista exclusiva (de hoje) com Pepe Guardiola. Voltamos já.

Pré-temporada européia, o empresário Dudu Melchiori cria a Southeast Cup, com as melhores camisas do velho continente jogando no Maracanã e no Morumbi. Ingressos esgotados. Cobertura ao vivo da chegada dos elencos de Real e PSG com uma multidão apaixonada no aeroporto.

Flamengo chega à semifinal da Southeast Cup. Jogo no Maracanã, torcidas divididas 30% a 70%. Um produtor deverá ser deslocado para o gramado para escolher os melhores personagens para as filmagens. Uma placa aparece “Filma nós: Torcida Rio Madrid de Jacarepaguá”.

Começa o jogo, ainda que com apenas 30% do estádio e silenciosa, a torcida do Real Madrid será ouvida com maior intensidade. Microfones deverão ser instalados apenas na torcida do clube de fora. Da torcida local não se ouvirá nada no sofá de casa.

Um repórter, em tom de indignação, registra uma faixa desrespeitosa e preconceituosa na torcida do Flamengo: “Brasileiro raíz torce pro time do seu país”. Torcida do Real, já preparada, porta cartazes “chega de preconceito”.

Real Madrid vence, aproveita o ensejo e leva seus craques para visitar torcedores hospitalizados e creches. “O Brasil é Real Madrid”, lançam nas redes sociais.

Mesas redundas são dominadas por um único debate: o preconceito da torcida do Flamengo.

Um famoso setorista do Real Madrid esbraveja: “ao invés de conquistar esse torcedor que é Real e é Flamengo, a torcida do Flamengo está tratado desrespeitosamente ele. Não se controla a paixão de ninguém, o Flamengo comete uma infelicidade”.

Outro entendido do assunto dispara: “mas se acha tão ruim assim torcedor de time de fora, por que reservou 30% do estádio pra ingresso deles? Isso é hipocrisia”.

O tema das disparidades nas receitas de TV chega no topo das redes sociais. Torcedores do Real Madrid alegam oportunismo, só porque o time acaba de ganhar mais um título.

Outros chacotam, a torcida do Flamengo é consideravelmente menor, portanto o critério de mercado – a audiência – deve prevalecer.

Com o debate quente, campanhas são feitas pelo Real Madrid e pela Globo para apaziguar os ânimos: “já vivemos em tempos muito violentos, não precisamos transformar o futebol em uma guerra”.

Um torcedor do Flamengo é exposto nos meios de comunicação por chamar a torcida do Real Madrid de “colonizada”. Torcedores do Real mandam ele aceitar que doerá menos.

Especialistas em gestão e marketing esportivo entram no debate para explicar como funciona a lógica da audiência televisiva, e explicam que ao invés de reclamar, o Flamengo deveria estar alavancando suas outras receitas para se tornar competitivo frente aos europeus.

CBF anuncia que o calendário brasileiro, por força de contrato televisivo, será adaptado ao Europeu, mas será encurtado para não chocar com a fase decisiva da Champions. Na lógica do mercado deverá prevalecer o produto mais importante.

Em contrapartida, nada mal, o torcedor poderá ser metade do ano torcedor do Flamengo ou do Corinthians, mas a outra metade ele vai dedicar a torcida do Real e do PSG. Bares já se antecipam e compram pacotes televisivos da Champions.

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Todos os elementos listados são reais.

Os nomes foram trocados para não ofender ninguém.

Um comentário em “Exercitando hegemonias

  1. Genial, Irlan. Pra gente que torce pelos times da terra o simples ato de torcer já é resistência, quando me perguntam se eu torço pra mais algum (“lá no rio/sp”) e eu nego é sempre espanto. Vida longa Na Bancada

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